
Saúde
Protetor solar em crise: tanmaxxing, fake news, FPS reprovado e até peptídeos alimentam polêmicas
por Redação Belezinha
foto: Jess Loiterton para Pexels
O protetor solar, essa unanimidade entre os dermatologistas, vive um momento preocupante: nunca tivemos tanta informação científica disponível sobre os riscos da exposição ao sol e, simultaneamente, observamos a desconfiança crescer, sobretudo nas redes sociais.
No Tiktok, tanmaxxing mobiliza gente jovem que incentiva a exposição deliberada ao sol para intensificar o bronzeado. Vídeos contra o uso de filtro solar também ganham tração ao espalhar mitos sobre segurança, saúde e “alternativas naturais”. Para completar, um escândalo de certificação na Austrália colocou em xeque até a eficácia real de marcas populares e bem estabelecidas.Segundo uma publicação da Marie Claire UK, alguns adeptos chegam a acompanhar o índice UV, que mede a intensidade da radiação ultravioleta, justamente para identificar os momentos em que o risco de queimadura é maior (socorro!). Alguns vão além e recorrem ao Melanotan, peptídeo sintético ainda não aprovado pelas entidades regulatórias e que é vendido como um atalho para intensificar o bronzeado com menos exposição solar (não tentem em casa!). Estudos sobre o composto mostram que ele pode ser aplicado por via injetável ou nasal e imita a ação do hormônio estimulador do alfa-melanócito, responsável por estimular a produção de melanina. Seu uso já foi associado a alterações na pigmentação, incluindo escurecimento de pintas existentes e aparecimento de novas pintas e sardas que podem dificultar a detecção de câncer de pele, e suspeita-se, que podem até colaborar com o desenvolvimento de melanoma.
O mais curioso que é a adesão ao movimento chama atenção por se popularizar entre uma geração que cresceu usando filtro solar na praia. Segundo pesquisa da American Academy of Dermatology (AAD), mais de 20% dos adultos da Geração Z entrevistados priorizam o bronzeado à proteção da pele, enquanto 25% consideram que vale a pena estar bonito agora, mesmo que isso signifique ter uma aparência pior no futuro. Metade também relatou ter sofrido ao menos uma queimadura solar em 2024.
“A Geração Z conhece as estatísticas do câncer de pele e cresceu com campanhas de FPS e conteúdo de dermatologistas em seus feeds”, afirmou o dermatologista Brendan Khong à Marie Claire UK. Para ele, porém, conhecer os riscos não significa necessariamente agir de acordo com eles, especialmente quando a recompensa estética é imediata e as possíveis consequências parecem distantes.
O tanmaxxing não é a única polêmica recente envolvendo proteção solar a circular pelas redes. Segundo o Cancer Therapy Advisor, vídeos no TikTok com a hashtag #nosunscreen somavam mais de 11,7 milhões de visualizações, enquanto #antisunscreen acumulava mais de 5,3 milhões. Entre os conteúdos, aparecem desde alegações de que o filtro solar poderia ser prejudicial à saúde até recomendações de sebo bovino e óleo de coco como alternativas aos produtos desenvolvidos para essa finalidade. “Estamos diante de um aumento alarmante de mitos sobre protetores. Os benefícios do produto na prevenção do melanoma superam em muito qualquer risco teórico, já que estudos provaram que eles não causam danos aos humanos”, afirmou ao veículo Annie Grossberg, professora associada de dermatologia na Johns Hopkins Medicine, nos Estados Unidos.
Fake news é real
A desinformação é significativa. Em pesquisa de 2026 da American Academy of Dermatology, 64% dos participantes da Geração Z afirmaram já ter se deparado com informações falsas sobre proteção solar nas redes, enquanto 36% apontaram influenciadores do Instagram ou TikTok como principal fonte de aconselhamento sobre cuidados com a pele. A mesma pesquisa aponta que mais de 16 milhões de adultos nos Estados Unidos reduziram ou interromperam o uso de protetor solar por causa de alegações encontradas online.E, apesar dos números, conteúdos contrário ao uso de protetor solar não dominam o TikTok — mas, sim, parece gerar mais reação. Um estudo publicado na PLOS Digital Health, que analisou 971 dos vídeos mais vistos sobre o tema, mostrou que 86,8% promoviam o uso de protetor solar, enquanto apenas 6% traziam algum tipo de crítica ao produto. Ainda assim, os vídeos críticos negativos proporcionalmente mais curtidas, compartilhamentos e comentários.
Diante desse cenário, marcas têm reforçado iniciativas de conscientização sobre proteção solar. Em agosto, a CeraVe lançou, nos Estados Unidos, uma campanha voltada diretamente ao tanmaxxing e ao chamado “UV index hacking”, investindo em espaços com áreas de sombra, medidores de índice UV e estações de protetor. Já a ZO Skin Health reuniu nomes como Supergoop!, EltaMD, Black Girl Sunscreen e Elizabeth Arden em uma coalizão com ações no TikTok, enquanto a La Roche-Posay apostou na #DermsAgainstBurns para combater mitos disseminados por “tanfluencers”.
Além das redes
Enquanto a Geração Z busca informação nas redes, uma polêmica diferente reacendeu o debate sobre regulação de protetor solar. Em junho de 2025, na Austrália (onde os protetores solares estão sujeitos a uma das regulamentações mais rigorosas do mundo) a associação de consumidores CHOICE testou 20 protetores solares vendidos no país e descobriu que 16 não entregavam o fator de proteção anunciado na embalagem. O caso mais grave foi o Lean Screen, da Ultra Violette, vendido como FPS 50+, mas que apresentou apenas FPS 4 nos testes. A marca inicialmente negou o problema, mas, dois meses depois, após novos testes, reconheceu a falha e tirou o produto de circulação.Segundo a BBC, a descoberta provocou forte reação dos consumidores e desencadeou uma investigação do órgão regulador de saúde australiano, levando outros produtos a deixarem as prateleiras e ampliando uma discussão que vai além das fronteiras do país. “Definitivamente não é um problema restrito à Austrália”, disse à publicação a química cosmética Michelle Wong, referindo-se ao desafio técnico complexo que é formular e testar protetores solares de forma confiável em todo o mundo.
Em outras palavras, a discussão não deveria ser se precisamos ou não de protetor solar. Deveria ser como garantir que os produtos funcionem como prometem e que as pessoas saibam usá-los corretamente.
E no Brasil?
A relação das brasileiras com o bronzeado segue forte, mas os dados mostram que a fotoproteção ainda está longe de ser um hábito consolidado. Em auditorias de campanhas recentes da Sociedade Brasileira de Dermatologia, 62,51% das pessoas ouvidas afirmaram se expor ao sol sem proteção adequada, enquanto apenas 31,63% disseram usar protetor solar regularmente.E o cuidado vai muito além da prevenção de manchas, rugas e sinais de envelhecimento. O câncer de pele é uma realidade e o não-melanoma (inclui principalmente carcinoma basocelular e carcinoma epidermoide/espinocelular) representa 31,3% dos casos estimados de câncer no país.
Vale reforçar que a recomendação dos dermatologistas segue sendo clara: o protetor solar deve ser usado diariamente, com FPS 30 ou superior, proteção contra raios UVA e UVB e aplicação em quantidade adequada. Em praia, piscina ou atividades ao ar livre, a SBD recomenda aplicar o produto antes da exposição e reaplicar a cada duas horas — ou antes disso em caso de transpiração excessiva ou contato com a água.
Quanto protetor solar usar?
A quantidade faz diferença. Aplicar pouco produto reduz a proteção real na pele e pode criar uma falsa sensação de segurança. Para o rosto no dia a dia, uma referência prática bastante usada é a regra dos três dedos. Também gostamos da dica de aplicar duas camada abundantes (no corpo e no rosto), para garantir uma boa cobertura. Na dúvida, nunca economize.Por fim, protetor solar não trabalha sozinho. A SBD também recomenda evitar exposição nos horários de maior radiação, especialmente entre 10h e 16h, além de usar roupas, chapéus, óculos escuros, sombra e outras formas de proteção física. Não vacila!