Tudo é wellness: por que hobbies viraram negócio de bem-estar?
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Tudo é wellness: por que hobbies viraram negócio de bem-estar?

por Larissa Nara

foto: Sterrekopje Farm (divulgação)

Basta uma atualizada no feed para encontrar resenhas de um novo listenning bar ou de um café onde é possível pintar (e até fazer) a própria xícara. Aulas de gastronomia em spas e até retiros de caminhada sensorial na floresta também entram nesse movimento em que hobbies e experiências aparentemente triviais viraram categoria de wellness.

Vivemos em um contexto global marcado por crises ambientais, instabilidade política e econômica, além de uma enxurrada diária de informações e estímulos, trabalho sem pausa e cortisol a mil, em que o estado de exaustão deixou de ser individual e virou pano de fundo coletivo. Casos de burnout e outras questões de saúde mental crescem de forma consistente. No Brasil, por exemplo, a síndrome passou a ser reconhecida como questão de saúde pública a partir de janeiro do ano passado e dados mais recentes do Ministério da Previdência Social, consolidados com base nos registros de 2024, mostram que houve um aumento de 67% no número de trabalhadores afastados por transtornos mentais e comportamentais em relação ao ano anterior.

Como resposta ao esgotamento mental, atividades que envolvem o corpo, presença plena e estímulo da criatividade ganham cada vez mais valor, especialmente em grandes cidades. Cafés como o Kooi Mooa, em São Paulo, e o Tinta la Vida, original de Belo Horizonte e que inaugurou unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, permitem que você faça ou pinte sua própria xícara ou tigela de cerâmica. Já o Art Wine, na ZIV Gallery, em São Paulo, combina aulas de pintura guiadas por artistas com degustação de vinhos. O movimento fica ainda mais evidente em spas e centros de bem-estar de luxo, como o THE WELL, em Nova York, e o Remedy Place, que oferecem programas de detox, jornadas sensoriais, terapias de contraste, banhos de gelo, saunas, luz vermelha e experiências focadas nos cinco sentidos para ancorar o corpo no presente mesmo em meio ao caos da cidade.

Segundo uma matéria da Condé Nast Traveller, a tendência também chega forte ao turismo com cada vez mais viajantes querendo explorar hobbies pessoais durante as viagens — cerca de 96% dos estadunidenses, de acordo com um estudo de 2025 realizado pela Harris Poll em parceria com o Marriott Bonvoy. Mais do que pacotes de massagem e meditação, agora os resorts e hotéis luxuosos estão incluindo em seus pacotes retiros focados em diversão e estado presente.

O Rancho La Puerta, no México, por exemplo, tem retiros de uma semana voltados ao aprendizado do mah jongg, jogo de peças originário da China no século XIX. Já o Sterrekopje, na África do Sul, oferece práticas de jardinagem e um ateliê de arte, e o Joali Being, nas Maldivas, tem um espaço chamado Art House, um estúdio exclusivo para eventos interativos e workshops artísticos, além de aulas de culinária e trilha sensorial interativa com 12 instrumentos que criam diferentes vibrações para um verdadeiro banho de som durante a caminhada.

Mais do que tratamentos isolados, esse movimento reflete um cenário em que o descanso passou a ser estruturado, mediado e, muitas vezes, inserido na dinâmica de consumo. Em um mundo hiperestimulado, a busca por bem-estar faz todo sentido e ajuda a explicar por que experiências ligadas à presença, ao corpo e à criatividade ganharam tanto valor — inclusive financeiro.

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