Caldo de ossos: por que a receita da vovó virou tendência de wellness?
Saúde

Caldo de ossos: por que a receita da vovó virou tendência de wellness?

por Larissa Nara

foto: Bruna Guerra

Saúde intestinal, colágeno para a pele, cuidado com as articulações e até com o sono: não faltam benefícios atribuídos ao caldo de ossos, preparação ancestral que tem aparecido cada vez mais nas redes sociais como um hábito a ser incorporado à rotina de quem busca mais saúde e bem-estar.

Diferente de uma sopa tradicional, o caldo de ossos é feito principalmente com ossos, cartilagens, pele e tecidos conjuntivos submetidos a um longo período de cozimento em fogo baixo. E o apelo nutricional vem justamente desse processo: como explicou o The New York Times, as horas de cozimento ajudam a extrair mais proteína dos ossos e tecidos conjuntivos. Boa parte dessa proteína vem do colágeno, que se dissolve durante o preparo e forma uma espécie de gelatina quando resfriado, dando ao caldo uma consistência mais encorpada.

Como resumiu o The New York Times, há um pouco de ciência por trás dos benefícios, mas também ressalvas importantes. Nutrientes como colágeno, gelatina e glutamina, frequentemente associados aos caldos, tornam a preparação biologicamente interessante. Ao mesmo tempo, ainda faltam estudos clínicos robustos feitos diretamente com o caldo em humanos. Por isso, a leitura mais honesta talvez seja esta: ele é nutritivo, reconfortante e útil na rotina, mas não vale dizer que é uma cura milagrosa.

No Brasil, as buscas pelo assunto cresceram 30% no último ano, segundo o Google Trends, e as receitas também estão em alta no TikTok. Até Ivete Sangalo tem uma marca para chamar de sua: a cantora é sócia da Vero Brodo. Segundo a Vogue americana, entre as novas formas de consumo está congelar o caldo em formas de gelo com sementes de chia, que aumentam o aporte de fibras, ômega-3, cálcio, magnésio e antioxidantes. A recomendação é dissolver um cubinho em água quente pela manhã, prática sugerida pela nutricionista naturopata Jessica Shand, autora do livro The Hormonal Handbook, citada pela reportagem.

Entre os entusiastas, há quem tome uma xícara todos os dias e quem use o caldo como base para sopas, risotos e outras preparações. Clarissa Soneghet, fundadora da Brodu, marca brasileira de caldos de ossos artesanais, é adepta há alguns anos, desde que recebeu a recomendação de incluir na rotina durante um tratamento gastrointestinal. Seu marido, Felipe, chef de cozinha, passou a usar suas técnicas de gastronomia para preparar versões saborosas do caldo em casa. “Eu achava que ia ser uma obrigação, mas comecei a gostar!”, disse.

A experiência pessoal acabou dando origem à Brodu. Lançada oficialmente em janeiro de 2025, a marca mantém a produção artesanal, com caldos que passam 48 horas cozinhando em fogo baixo. No portfólio, estão as versões Misto, feita com carne bovina e pés de galinha (R$ 66), e Missô (R$ 70). Os pedidos podem ser feitos via WhatsApp, com entregas em algumas cidades do estado de São Paulo. Além da Brodu, a WonderLev também oferece opções para quem deseja experimentar e não quer passar horas na cozinha. A marca conta com versões individuais de 250 ml que, inclusive, já foram recomendadas pela chef Paola Carosella nos stories.

Por que virou tendência?
Parte do interesse pelo caldo de ossos tem a ver com duas palavras em alta: colágeno e proteína. Mas também é interessante pensar que, depois de anos de alimentação ultraprocessada e de uma linguagem de saúde cada vez mais técnica, cresce o desejo por comidas que pareçam simples, densas, nutritivas e reconhecíveis. O caldo de ossos entra bem nesse imaginário: carrega uma ideia de cuidado anterior ao wellness industrializado e entrega uma sensação de saúde sem parecer produto de laboratório. E é justamente aí que a conversa precisa ser mais cuidadosa.

Caldo de ossos, sozinho, não faz milagre!
Embora não faltem benefícios atribuídos ao caldo de ossos, os estudos clínicos feitos diretamente com o alimento ainda são escassos. Segundo Marcella Garcez, médica nutróloga e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), boa parte dessas alegações vem de pesquisas sobre nutrientes isolados presentes em sua composição, como colágeno, glicina e glutamina. “Existem mecanismos biologicamente plausíveis e estudos experimentais sobre componentes presentes no caldo, porém isso não equivale à comprovação clínica do alimento como tratamento”, explica.

A cautela vale, inclusive, para um dos seus principais chamariz: o colágeno. “Durante a digestão, o colágeno e a gelatina são quebrados em peptídeos e aminoácidos, que são absorvidos e utilizados pelo organismo conforme suas necessidades. Portanto, o colágeno ingerido não chega intacto à pele ou às articulações”, explica a nutróloga. Também não vale encará-lo como substituto de outras fontes de proteína.

Na hora de escolher
Não existe uma quantidade oficial de proteína que defina um bom caldo de ossos (as receitas, inclusive, variam bastante) mas Marcella dá uma pista. “Um produto com apenas 1 ou 2 gramas de proteína em uma porção grande funciona mais como um caldo aromático do que como uma fonte proteica relevante”, diz.

Também é importante conferir o sódio, especialmente nas versões prontas, e a lista de ingredientes, observando se ossos, carne ou caldo concentrado aparecem entre os primeiros itens, além de aromatizantes ou conservantes — as melhores versões são 100% naturais. E, lembre-se, No Brasil, produtos com excesso de sódio devem trazer a lupa frontal de “alto em sódio” na embalagem.

Para a especialista, caseiro ou pronto, o caldo de ossos pode contribuir com uma rotina saudável, só não deve ser encarado como suplementação ou elixir de saúde. “Ele pode fazer parte de uma alimentação equilibrada, especialmente como base para sopas, legumes e outras preparações”, resume.

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