
Longevidade
Adesivos transdérmicos: por que os patches de vitaminas são os novos gummies
por Manuela Aquino
foto: The Good Patch (reprodução/Instagram)
Depois das gominhas, os adesivos transdérmicos começam a ganhar espaço no mercado de suplementos. Embora o formato esteja longe de ser novidade — patches são usados há décadas para administrar medicamentos através da pele —, uma nova geração de adesivos chega ao mercado de bem-estar com promessas que vão da reposição de vitaminas ao alívio do estresse, melhora do sono e aumento da energia. Tudo isso num momento em que longevidade é palavra de ordem, especialmente se estiver associada a conveniência e performance.
Embora ainda incipiente por aqui, o movimento acompanha a expansão do próprio mercado global de bem-estar, que, segundo o Global Wellness Institute, deve chegar a US$ 9,8 trilhões até 2029. Dentro desse universo, os adesivos de vitaminas ainda formam uma categoria pequena, mas em crescimento: avaliado em US$ 206,8 milhões em 2024, o mercado global de vitamin patches deve chegar a US$ 300,7 milhões em 2026 e a US$ 532,1 milhões em 2030, de acordo com a Grand View Research.
A América do Norte aparece como principal mercado regional, com 43,5% da receita global da categoria em 2024, e é dos Estados Unidos que vêm algumas das principais marcas e novidades do setor. A oferta acompanha a variedade de promessas: há adesivos de vitamina D, vitamina C, B12 e multivitamínicos, além de produtos voltados a energia, sono e bem-estar, de marcas como PatchMD, PatchAid, TheVitCo e Barrière. E os patches não são os únicos a testar novos jeitos de suplementar: a Wizard Wellness, por exemplo, aposta nas Oral Strips, tiras que dissolvem na boca e combinam ativos como probióticos, quercetina, NAC e rhodiola.
Literalmente, um acessório
Dentro desse cenário, as marcas de wellness passaram a disputar espaço também pela composição e pela estética (!) dos produtos. Uma reportagem da Marie Claire americana mostra que os adesivos hoje combinam tecnologia transdérmica com uma estética que lembra mais um acessório de beleza do que um produto médico.
A The Good Patch, por exemplo, tem adesivos discretos com cafeína voltados para foco, fórmulas para sono e opções com elderberry, zinco e vitamina D3 para imunidade. Entre os destaques está o Think Patch, com lion’s mane, Bacopa, erva-mate e 15 mg de cafeína. Já a Barrière traz versões que lembram aquelas tatuagens adesivas, hit dos anos 2000, estampadas com cerejas, raios, fases da lua, borboletas e conchas. Sob o slogan “Wear your vitamins” (“vista suas vitaminas”, em tradução livre), a ideia é que elas também enfeitem a pele. “A intenção foi criar um produto que as pessoas realmente quisessem usar e que trouxesse um pouco de alegria à rotina de bem-estar”, disse Cleo Davis-Urman, cofundadora da marca, à publicação.
Essa nova geração de adesivos promete atuar em diferentes frentes — do alívio de cólicas menstruais e reposição de vitaminas à ansiedade, sono e até ressaca —, mas é no encontro entre função, estética e ritual de uso que tenta conquistar espaço na rotina. A trajetória de Ross J. Barr ajuda a entender esse movimento. O acupunturista baseado em Londres criou seus patches de aromaterapia durante a pandemia, quando o lockdown o impediu de continuar atendendo pacientes presencialmente. A ideia, contou recentemente ao Financial Times, era transportar para o adesivo parte dos princípios que já usava na prática, combinando ingredientes botânicos e aplicação em pontos específicos de acupuntura.
E a proposta ganhou escala: segundo o jornal, a empresa cresceu 139% em relação ao ano anterior, enquanto a taxa de clientes que voltaram a comprar aumentou 70% no mesmo período. Os patches também chegaram ao varejo de luxo — os de sono foram parar nos minibares do Claridge’s e a marca entrou na Selfridges, onde, no ano seguinte, foi a que mais cresceu na categoria de wellbeing.
Mas será que funciona?
Por trás do crescimento, do design e das novas promessas, fica uma questão mais básica: vitaminas e outros ativos conseguem mesmo ser absorvidos pela pele? “A absorção pode ser um desafio, porque a pele funciona como uma barreira protetora e por isso é naturalmente resistente a deixar substâncias atravessá-la”, disse à Fashionista a dermatologista Ohara Aivaz, que atende em Beverly Hills.
Embora alguns medicamentos — como nicotina, terapia de reposição hormonal e analgésicos — funcionem bem nesse formato, muitas vitaminas e nutrientes são moléculas maiores e mais complexas, que podem não penetrar a pele com a mesma eficiência. Também ouvida pela publicação, a dermatologista Rachel Westbay, de Nova York, considera os patches uma alternativa possível para quem tem dificuldade de tomar suplementos por via oral ou busca uma rotina mais simples. “Mas eles não devem substituir uma alimentação equilibrada ou outros suplementos necessários”, pondera.
A fabricação e a procedência também variam bastante entre as marcas. Por isso, embora o design seja um dos motores dessa nova geração de patches, os especialistas reforçam que aparência, promessa de função e evidência científica precisam ser avaliadas separadamente.