De volta para o futuro: porque fragrâncias icônicas estão de volta
Fragrância

De volta para o futuro: porque fragrâncias icônicas estão de volta

por Vânia Goy

foto: O Boticário (divulgação)

Toda vez que uma fragrância querida deixa de ser produzida, meu inbox vira uma pequena central de atendimento: gente querendo saber onde ainda existe estoque, procurando possíveis dupes ou simplesmente indignada, me pedindo até para falar com as marcas. Não é difícil entender por quê, sobretudo quando a gente fala de perfume. Fragrância é emoção pura: tem o poder de devolver uma pessoa, uma viagem, uma casa, um relacionamento ou uma versão de nós mesmos que ficou no passado. E, justamente por isso que, numa indústria movida por tantos lançamentos, o que já saiu de circulação esteja ganhando um novo valor.

Segundo a Fragrance.com, varejista americana com cerca de 40 mil fragrâncias em sua prateleira, a categoria de fragrâncias vintage e heritage cresceu aproximadamente 21% em três anos, segundo a BeautyMatter. Não estamos falando, portanto, apenas de uma onda de nostalgia nas redes, mas de uma demanda comercial por perfumes com história. Em 2025, a Coty recuperou Ambre Antique, fragrância lançada originalmente em 1905. Em vez de tratar o arquivo apenas como memória institucional, a companhia passou a usá-lo como ferramenta de diferenciação em uma categoria onde lançamentos disputam espaço com milhares de concorrentes e com a cultura dos dupes. A Vogue Business relaciona o movimento também ao interesse de consumidores mais jovens por produtos com identidade, história e uma certa autenticidade difícil de fabricar do zero.

O Boticário, Dior e Guerlain também vêm revisitando seus arquivos, mas nem sempre para reproduzir literalmente o que já existiu. Regulamentação, matérias-primas que desapareceram e novas expectativas de performance fazem com que recuperar uma fórmula histórica possa exigir tanta pesquisa quanto desenvolver uma fragrância inédita. Às vezes, o resultado é uma restauração, em outras, uma interpretação contemporânea daquele patrimônio. A volta da Annick Goutal, que deve ser relançada agora em outubro depois da compra pela Interparfums, mistura fragrâncias já conhecidas da casa, entre elas Eau d’Hadrien e Petite Chérie, com três criações novas, todas em frascos redesenhados.

No Brasil, O Boticário está transformando memória e portfólio a partir da Chefe dos Descontinuados, uma plataforma de escuta que acompanha conversas, comentários e pedidos dos consumidores. Retornam Egeo Melancia, Egeo Banana, Cuide-se Bem Melancia, Cuide-se Bem Deleite Chocolatudo e fragrâncias da linha Dream, no que a marca chama de seu maior comeback até hoje. “Fragrâncias têm uma capacidade única de criar conexões emocionais e, por isso, alguns produtos permanecem na memória das pessoas mesmo depois de saírem de linha. A Chefe dos Descontinuados nasce justamente dessa escuta: entender quais histórias continuam vivas e quais produtos os consumidores querem reencontrar. Trazer esses clássicos de volta é uma forma de valorizar esse vínculo e, ao mesmo tempo, olhar para o nosso portfólio de uma maneira diferente, transformando a memória em novas possibilidades de conexão”, diz Paulo Roseiro, Diretor Executivo de Perfumaria do Grupo Boticário 

Já a Guerlain acaba de lançar uma nova interpretação de L’Heure Bleue, criação de Jacques Guerlain de 1912, por aqui. Delphine Jelk, perfumista que assina a fragrância, preservou dois códigos fundamentais da original (íris e baunilha!), mas reconstruiu a fragrância com uma tintura de íris desenvolvida para o projeto e uma composição que inclui um acorde ozônico e ambroxan. Até o histórico frasco foi reinterpretado e agora é refilável. Esse interesse pelo passado aparece justamente num momento de abundância quase excessiva de novidade. Segundo dados da Circana citados pela Allure, houve 50% mais lançamentos de fragrâncias em 2025 do que no ano anterior. E, sabemos, nostalgia, conforto e escapismo estão entre os movimentos mais fortes que ajudam a definir a perfumaria em 2026.

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