
Fragrância
Suor, couro e látex: a era kinky da perfumaria
por Redação Belezinha
foto: Vyrao (divulgação)
A sensualidade sempre esteve presente na perfumaria, seja nos anúncios, seja em acordes clássicos como baunilha, almíscar e âmbar, usados historicamente para despertar desejo e intimidade. O que muda agora é a narrativa: fragrâncias que evocam suor, couro e látex passam a ganhar cada vez mais espaço. Mais sensuais e mais kinky, esses perfumes tensionam a estética asséptica que dominou a beleza nos últimos anos e reposicionam o desejo como experiência sensorial, cultural e até política.
Uma publicação recente da Coveteur analisa como o universo kink, associado a práticas e desejos sexuais considerados fora do convencional, vem sendo traduzido em cheiro na perfumaria contemporânea. Mais do que fetiche, essas fragrâncias funcionam como atalhos sensoriais para estados psicológicos ligados a poder, vulnerabilidade e entrega. “Usamos o kink para acessar estados mentais específicos”, explica a dominatrix Eva Oh na matéria, ao falar sobre práticas como o bondage, que envolvem cuidado, deslocamento emocional e confiança.
Nesse contexto, o perfume deixa de ser apenas um adorno e passa a operar como experiência sensorial e psicológica. Marcas de nicho têm trabalhado o erotismo justamente pelo desconforto, pela ambiguidade e pela tensão. É o caso das fragrâncias Ludeaux e Ludatrix, da Vyrao, inspiradas no cheiro sintético e provocador do látex, e de Born Screaming, da Toskovat, que causa estranhamento inicial, mas se revela magnética com um mix de notas de cereja artificial, bebida energética, plástico, látex e brinquedos sexuais. A matéria também cita perfumes com acordes mais animalescos, como Leatherize, da D.S. & Durga, além de criações de marcas como Marlou e Eris Parfums, incluindo a extrema Sécrétions Magnifiques, conhecida por notas que evocam suor, sangue e fluidos corporais.
Essa virada da perfumaria contemporânea dialoga com um contexto mais amplo. Em um momento marcado por avanços conservadores, especialmente no que diz respeito ao controle dos corpos e aos direitos reprodutivos das mulheres, o erotismo reaparece menos como fantasia idealizada e mais como gesto estético e emocional. Segundo uma pesquisa de 2025 da dsm-firmenich, consumidores buscam hoje uma abordagem mais realista da sexualidade, menos performática e mais sentida. “A sensualidade está se afastando da fantasia e se aproximando da realidade emocional. Não se trata de ser vista, mas de estar perto”, disse Justin Welch, diretor global de marketing da empresa, em entrevista ao WWD no ano passado.
No episódio “Conservadorismo”, do podcast Ciao, Bela, que analisa essa ascensão global, a conversa parte justamente desse paradoxo: em contextos de avanço conservador, emergem respostas estéticas que recusam contenção, polimento excessivo e moralização do corpo. É a partir dessa chave de leitura que a perfumaria contemporânea também pode ser entendida. Fragrâncias kinky, carregadas de tensão, ambiguidade e desejo, funcionam como contraponto sensorial à estética da limpeza, da neutralidade e do autocontrole, como a ‘era clean girl‘ que marcou os últimos anos da beleza.
Assim como essas fragrâncias tensionam a lógica da neutralidade olfativa, as estéticas analisadas no episódio — da latinidade exuberante à messy girl, do fubanga core ao retorno do exagero — operam como gestos intencionais de desordem. Não se trata apenas de sensualidade ou provocação, mas de reivindicar o direito ao excesso, à imperfeição e ao prazer em um mundo que insiste em associar controle a virtude. Para entender melhor, ouça o episódio aqui.