Biblioteca: De L’Art du Parfum, de Frédéric Malle
Eleitos

Biblioteca: De L’Art du Parfum, de Frédéric Malle

por Vânia Goy

Por Dênis Pagani, do 1nariz

Jeitos de valorizar um produto e criar uma marca desejada: 1) investir pesado em propaganda, 2) trabalhar direito e, dez anos depois, publicar um livro que explica por extenso o que seria dito nas propagandas. (Decorrência provável: vender a marca, ficar mais rico.)

De L’Art du Parfum, de Frédéric Malle estava na minha mira desde que saiu, a compra ficou para trás pelo preço – é um livro bonitão, enorme, ilustrado, apresentando a maior parte dos perfumes da casa (Eau de Magnolia e Dris Van Noten são posteriores). Achei num sebo um exemplar por um preço potável e, descobri depois, autografado pelo próprio Malle, com um Feliz Natal. Não para mim mas viva a surpresa bem vinda. “Como saber sob quais influências agimos?” pergunta Malle. Do meu lado, comprei também porque a marca acaba de ser vendida para Estée Lauder. Não acho que vão matar a galinha dos ovos de ouro, só que mais cedo ou mais tarde, mudanças acontecem. Se quer alguma coisa da marca, compre agora.

Do lado dele, outras hipóteses: além do avô, fundador da perfumaria de Christian Dior e da mãe, que seguiu os passos na mesma empresa, Frédéric Malle tem laços curiosos com o assunto que o fez conhecido do grande público. Nasceu no 17 de julho, mesmo dia que Jean-Baptiste Grenouille, personagem principal d’O Perfume, de Patrick Süskind; seu quarto de criança era o mesmo de Jean-Paul Guerlain, último perfumista na casa que leva seu nome de família.

Após o prefácio de Catherine Deneuve, o texto é do próprio Malle, contando desde sua intenção ao fundar a marca (“[em 1998], como as luvas, os chapéus e as gravatas, o perfume parecia destinado a desaparecer”), o processo obsessivo com que testa um perfume para desenvolvê-lo e sua filosofia de trabalho. E então aborda cada perfume da coleção, seus pontos de partida e particularidades na criação, com detalhes gostosos – lembra entrevistas com escritores, em que aparecem manias, mecânicas de trabalhar. Exemplos: Malle percebe que o desenvolvimento de um perfume está chegando ao fim quando começa a pensar no nome que ele vai levar. Se se perde no processo de avaliação de ensaios, aplica dois ou três modelos nos braços antes de dormir, “esperando que a noite me traga um conselho.” Sobre a arte de saber parar: “Se procuramos a perfeição, acariciamos o tédio. Como as pessoas apaixonantes, um perfume tem que ter aspereza.”

De L’Art du Parfum é ilustrado por Konstantin Kakanias – a imagem do post é para Lipstick Rose, fragrância assinada por Ralf Schwieger, e a capa do livro.

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