Saúde
Wegovy em comprimido é aprovado no Brasil com eficácia próxima à versão injetável
por Vânia Goy
foto: Cup of Couple para Pexels
A Anvisa aprovou nesta quarta-feira (4), o Wegovy em comprimidos, versão oral da semaglutida para o tratamento da obesidade. O medicamento, criado pela dinamarquesa Novo Nordisk, deve ser tomado uma vez ao dia e chega ao Brasil depois de já estar à venda nos Estados Unidos e na União Europeia. Segundo a fabricante, o medicamento deve chegar aos pontos de venda no primeiro trimestre de 2027 e ainda não tem preços confirmados. “A aprovação da Anvisa é o primeiro passo para a entrada de Wegovy comprimido no mercado brasileiro. A Novo, que revolucionou o tratamento da obesidade, hoje traz mais uma inovação, ampliando as opções e permitindo maior individualização na jornada de emagrecimento”, disse ao Belezinha, Priscilla Mattar, vice-presidente médica e da área regulatória da Novo Nordisk.
O pedido brasileiro havia sido protocolado pela farmacêutica em janeiro deste ano e baseado principalmente no OASIS 4, estudo de fase 3 que avaliou a semaglutida oral na dose de manutenção de 25 mg em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma comorbidade. A grande notícia está no resultado: a perda de peso observada com o comprimido ficou muito próxima daquela obtida com o Wegovy injetável, que já é comercializado no país.
Entre os participantes, a perda média foi de 16,6% do peso corporal em 64 semanas, contra 2,7% com placebo. Quando a análise considera todos os participantes, independentemente de interrupções do tratamento, a redução média foi de 13,6%, contra 2,2% com placebo. Mais da metade dos pacientes que seguiram o tratamento perdeu pelo menos 15% do peso e cerca de um terço perdeu 20% ou mais.
Comprimido muda a eficácia?
Menos do que se poderia imaginar. No estudo STEP 1, que ajudou a estabelecer a eficácia do Wegovy injetável de 2,4 mg, a perda média chegou a 16,9% entre os participantes que permaneceram em tratamento. No OASIS 4, o número correspondente com o comprimido foi de 16,6% — os números vêm de estudos diferentes, com populações e desenhos distintos, e não de um ensaio que colocou comprimido e injeção frente a frente. Mas ajudam a explicar por que a própria Novo Nordisk descreve a eficácia e o perfil de segurança da versão oral como amplamente semelhantes aos do Wegovy injetável. De acordo com Fernanda Canedo, gerente médica da Novo Nordisk, o desafio era fazer o princípio ativo sobreviver ao sistema digestivo e ser absorvida em quantidade suficiente quando ingerida.
Trocar a caneta pelo comprimido também não significa escapar dos efeitos adversos típicos dos agonistas de GLP-1. No OASIS 4, 74% dos participantes que receberam semaglutida oral relataram algum evento gastrointestinal, contra 42,2% no grupo placebo. Náusea, diarreia, constipação, dor abdominal, indigestão e vômitos estiveram entre os mais frequentes, principalmente durante a fase de aumento gradual da dose.Ou seja: o ganho da nova formulação está principalmente em oferecer outra forma de tomar o medicamento, e não necessariamente em transformar sua tolerabilidade.
Também existe uma diferença prática: o comprimido é diário, enquanto o Wegovy injetável é aplicado uma vez por semana. A orientação é tomar a semaglutida oral em jejum, depois de pelo menos oito horas sem comer, com pequena quantidade de água, e esperar pelo menos 30 minutos antes de comer, beber ou tomar outros medicamentos. A absorção oral é mais variável do que a subcutânea.
Portanto, “mais conveniente” não será uma resposta universal. Algumas pessoas podem preferir uma aplicação semanal enquanto outras evitam medicamentos injetáveis e tendem a aderir melhor a um comprimido diário. Essa preferência pode ser especialmente relevante no Brasil. Em entrevista ao Portal Drauzio Varella durante o congresso europeu EASD 2026, Emil Kongshøj Larsen, vice-presidente executivo de operações internacionais da Novo Nordisk, afirmou que o mercado brasileiro é fortemente orientado a comprimidos e que a opção oral poderia ampliar as alternativas disponíveis aos pacientes. “Temos dados de que 80% das pessoas que iniciaram tratamento com Wegovy comprimido nos Estados Unidos nunca haviam tomado nenhum remédio desta classe. Isso reflete uma possibilidade de chegar a mais pessoas e ter um tratamento potente, eficaz, seguro e que cabe na rotina de todos”, comentou Priscilla, ao Belezinha.
O Brasil entra nessa nova fase em um momento em que o mercado de medicamentos para obesidade já está ficando mais competitivo. Só em 2026, a Anvisa acelerou a avaliação de novos produtos à base de semaglutida e liraglutida. Só em outubro, a agência informou já ter aprovado 20 novas canetas ao longo do ano.
